Algumas
pessoas não admitem (apesar de deduzirem), mas de fato todas as mulheres vão
para o inferno.
Desde
que Belfagor¹ voltou de sua experiência na terra, entre a população infernal não restou
dúvida da predestinação das mulheres para ocuparem os espaços quentes do mundo
abaixo. Os homens argumentavam que só estavam ali (no inferno) porque tinham
cometido o pecado inicial do casamento e as mulheres os induziam aos outros
erros tal qual como Eva teria feito com Adão. E com a comprovação de Belfagor,
que preferiu perder a honra do que voltar para sua mulher, ficou acordado entre
os juízes supremos do inferno que todas as mulheres seriam mandadas diretamente
para as chamas. Dessa forma, as mulheres não passariam mais por julgamentos (o
que poupou muito tempo para todos os interessados).
Porém
algumas mulheres já estavam no céu e o diabo e deus precisaram fazer um acordo
para reverter tal situação. O diabo em troca das mulheres (que por algum motivo
tinham sido classificadas como boas para irem para o céu) entregou os seus
homens. Deus gostou da proposta, afinal mais vale um varão que uma mulher, não
é mesmo? E o diabo também ficou contente,
deus com sua cegueira prepotente poderia não perceber, mas ele estava garantindo
todo o fruto da terra.
As
mulheres já eram maioria no inferno, como todos sabem, é muito mais difícil ser
mulher e não pecar do que sendo homem. Uma vez, inclusive, o próprio diabo
debateu tais regras com deus, argumentando que talvez os seres humanos devessem
ter em algum momento o direito da escolha de seu órgão sexual já que isso seria
tão determinante para sua história em terra. Levando em consideração o livre arbítrio,
o diabo rebateu que talvez a partir dos 12 anos fosse um momento certo para
escolher. Claro que deus odiou a ideia, e odiou posteriormente outros absurdos
como escolher (a partir dos 18) a classe social, a cor da pele ou as
predileções sexuais. Todas essas ideias foram consideradas subversivas e diabólicas
(o que eram mesmo, já que foram forjadas pelo próprio demônio).
Dessas
conversas com deus, o diabo sempre voltava frustrado. Era incrível como a conceitualização
de livre arbítrio era completamente arbitraria. Mas das cosias de deus só deus
sabe.
Na sua convivência com as mulheres no
inferno o diabo foi percebendo o quanto gostava do feminino e quanto aquelas
mulheres eram diferentes entre elas. Com o tempo começou a perceber que na verdade,
ele gostava muito do feminino. Não à toa tinha gostado tanto de Eva e sua
curiosidade pela experimentação e pelo conhecimento. Uma mulher incrível que
pagou por uma lei ridícula. Talvez essa tenha sido a primeira lei absurda do
mundo. Até hoje elas existem e se expandem, tem lugares, por exemplo, que a
escravidão era lei, não pagou virou escravo; tem lugar que não se pode andar de
bicicleta e tomar sorvete ao mesmo tempo; tem uma cidade chamada Sorocaba que
durante um período era proibido o beijo em público. Todas leis ridículas. Mas
as pessoas só lembram de Eva e a porcaria da maça, que amigos, percebam que é
uma metáfora (!) para encobrir o ato de coragem de Eva de reivindicar para si
(e para a humanidade) a capacidade do conhecimento. O grande questionamento
aqui deveria ser porque somente uma pessoa poderia ter isso? O diabo era um grande
questionar e por isso foi mandando embora dos céus com mais 1/3 da categoria
angelical.
É
válido destacar que muitos homens ou apenas “pessoas possuidoras de pênis”
foram mandadas para o desígnio do diabo por confundirem à santidade. Era
feminino demais para ir para o céu. E a partir desse momento o diabo conseguiu ganhar
também as afeminadas. Tudo que era feminino foi proibido por deus.
Essa
história toda é muito autocentrada na personagem do diabo, que aliás, com
alguns anos passou a adotar o feminino e a arrendar a neca, hoje, diaba,
obrigada. Seu contato com o feminino o fez se apaixonar cada vez mais por essa
estética. Tanto foi que esqueceu da sua dicotomia com deus e passou a viver a
sua vida em cultos à feminilidade. Nesse ponto talvez seja importante falar que o
diabo, ao contrário de deus, não mandava embora as mulheres masculinas, pelo
contrário, as elegeu como as novas arquidiabas, porque elas confundiam os
arcanjos e sempre voltavam com histórias maravilhosas de como travar o
pensamento linear.
E
aí entra o ponto central dessa história. E as mulheres? Bem, minhas caras
amigas (tomarei o feminino como novo universal), era tudo plano de Eva desde o início.
Na verdade, começou com Lilith e depois passou pra Eva, mas a autoria não
importa muito. A questão é que como foi a mulher a comer o fruto da sabedoria, ela com um mínimo de raciocínio descobriu que deus não era lá essas pessoas
igualitárias e que ela sofreria muito com esse modelo hegemônico instituindo.
Seu plano foi desde o início (e depois passado para cada mulher) conseguir
aliados fortes o suficientemente para o futuro enfrentamento, no caso, o diabo.
Quando a primeira metade do plano deu certo e deus aceitou mandar todas as
mulheres e existências do afeminado para o inferno foi possível trazer o diabo
para os seus planos diplomáticos. Enquanto isso no céu os homens não suportavam
mais viverem isolados (diferentemente das mulheres que eram muito bem treinadas
pela sociedade a não serem escutadas e terem seus desejos valorizados, os
homens não estavam acostumados com todo aquele celibato – apesar de alguns
subverterem da maneira que dava – e além disso eles não eram escutados, tudo
era deus). Entediados com tamanha chatice um homem conseguiu um contato entre
as arquidiabas apelando pela sua entrada no inferno. Desse dia em diante um por
um dos homens foram deixando o céu. Pouco depois até os anjos foram embora
(bastou um pouco de leitura e aulas com as arquidiabas).
Deus ficou só e assim permanece. Sem ninguém
que lhe venere e cumpra suas ordens nem os seus poderes tinham mais
significado.
Como podem perceber, todas as mulheres vão
para o inferno, mas isso não é ruim não, é um plano de Eva, a primeira
pensadora.
¹Belfagor é o personagem
principal do conto Belfagor, o Arquidiabo
de Maquiavel.
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