terça-feira, 12 de maio de 2015

Todas as mulheres vão para o inferno

Algumas pessoas não admitem (apesar de deduzirem), mas de fato todas as mulheres vão para o inferno.
Desde que Belfagor¹ voltou de sua experiência na terra, entre a população infernal não restou dúvida da predestinação das mulheres para ocuparem os espaços quentes do mundo abaixo. Os homens argumentavam que só estavam ali (no inferno) porque tinham cometido o pecado inicial do casamento e as mulheres os induziam aos outros erros tal qual como Eva teria feito com Adão. E com a comprovação de Belfagor, que preferiu perder a honra do que voltar para sua mulher, ficou acordado entre os juízes supremos do inferno que todas as mulheres seriam mandadas diretamente para as chamas. Dessa forma, as mulheres não passariam mais por julgamentos (o que poupou muito tempo para todos os interessados).
Porém algumas mulheres já estavam no céu e o diabo e deus precisaram fazer um acordo para reverter tal situação. O diabo em troca das mulheres (que por algum motivo tinham sido classificadas como boas para irem para o céu) entregou os seus homens. Deus gostou da proposta, afinal mais vale um varão que uma mulher, não é mesmo?  E o diabo também ficou contente, deus com sua cegueira prepotente poderia não perceber, mas ele estava garantindo todo o fruto da terra.
As mulheres já eram maioria no inferno, como todos sabem, é muito mais difícil ser mulher e não pecar do que sendo homem. Uma vez, inclusive, o próprio diabo debateu tais regras com deus, argumentando que talvez os seres humanos devessem ter em algum momento o direito da escolha de seu órgão sexual já que isso seria tão determinante para sua história em terra. Levando em consideração o livre arbítrio, o diabo rebateu que talvez a partir dos 12 anos fosse um momento certo para escolher. Claro que deus odiou a ideia, e odiou posteriormente outros absurdos como escolher (a partir dos 18) a classe social, a cor da pele ou as predileções sexuais. Todas essas ideias foram consideradas subversivas e diabólicas (o que eram mesmo, já que foram forjadas pelo próprio demônio).  
Dessas conversas com deus, o diabo sempre voltava frustrado. Era incrível como a conceitualização de livre arbítrio era completamente arbitraria. Mas das cosias de deus só deus sabe.
Na sua convivência com as mulheres no inferno o diabo foi percebendo o quanto gostava do feminino e quanto aquelas mulheres eram diferentes entre elas. Com o tempo começou a perceber que na verdade, ele gostava muito do feminino. Não à toa tinha gostado tanto de Eva e sua curiosidade pela experimentação e pelo conhecimento. Uma mulher incrível que pagou por uma lei ridícula. Talvez essa tenha sido a primeira lei absurda do mundo. Até hoje elas existem e se expandem, tem lugares, por exemplo, que a escravidão era lei, não pagou virou escravo; tem lugar que não se pode andar de bicicleta e tomar sorvete ao mesmo tempo; tem uma cidade chamada Sorocaba que durante um período era proibido o beijo em público. Todas leis ridículas. Mas as pessoas só lembram de Eva e a porcaria da maça, que amigos, percebam que é uma metáfora (!) para encobrir o ato de coragem de Eva de reivindicar para si (e para a humanidade) a capacidade do conhecimento. O grande questionamento aqui deveria ser porque somente uma pessoa poderia ter isso? O diabo era um grande questionar e por isso foi mandando embora dos céus com mais 1/3 da categoria angelical.  
É válido destacar que muitos homens ou apenas “pessoas possuidoras de pênis” foram mandadas para o desígnio do diabo por confundirem à santidade. Era feminino demais para ir para o céu. E a partir desse momento o diabo conseguiu ganhar também as afeminadas. Tudo que era feminino foi proibido por deus.
Essa história toda é muito autocentrada na personagem do diabo, que aliás, com alguns anos passou a adotar o feminino e a arrendar a neca, hoje, diaba, obrigada. Seu contato com o feminino o fez se apaixonar cada vez mais por essa estética. Tanto foi que esqueceu da sua dicotomia com deus e passou a viver a sua vida em cultos à feminilidade. Nesse ponto talvez seja importante falar que o diabo, ao contrário de deus, não mandava embora as mulheres masculinas, pelo contrário, as elegeu como as novas arquidiabas, porque elas confundiam os arcanjos e sempre voltavam com histórias maravilhosas de como travar o pensamento linear.
E aí entra o ponto central dessa história. E as mulheres? Bem, minhas caras amigas (tomarei o feminino como novo universal), era tudo plano de Eva desde o início. Na verdade, começou com Lilith e depois passou pra Eva, mas a autoria não importa muito. A questão é que como foi a mulher a comer o fruto da sabedoria, ela com um mínimo de raciocínio descobriu que deus não era lá essas pessoas igualitárias e que ela sofreria muito com esse modelo hegemônico instituindo. Seu plano foi desde o início (e depois passado para cada mulher) conseguir aliados fortes o suficientemente para o futuro enfrentamento, no caso, o diabo. Quando a primeira metade do plano deu certo e deus aceitou mandar todas as mulheres e existências do afeminado para o inferno foi possível trazer o diabo para os seus planos diplomáticos. Enquanto isso no céu os homens não suportavam mais viverem isolados (diferentemente das mulheres que eram muito bem treinadas pela sociedade a não serem escutadas e terem seus desejos valorizados, os homens não estavam acostumados com todo aquele celibato – apesar de alguns subverterem da maneira que dava – e além disso eles não eram escutados, tudo era deus). Entediados com tamanha chatice um homem conseguiu um contato entre as arquidiabas apelando pela sua entrada no inferno. Desse dia em diante um por um dos homens foram deixando o céu. Pouco depois até os anjos foram embora (bastou um pouco de leitura e aulas com as arquidiabas).
 Deus ficou só e assim permanece. Sem ninguém que lhe venere e cumpra suas ordens nem os seus poderes tinham mais significado.
 Como podem perceber, todas as mulheres vão para o inferno, mas isso não é ruim não, é um plano de Eva, a primeira pensadora.



¹Belfagor é o personagem principal do conto Belfagor, o Arquidiabo de Maquiavel. 

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