Queria mesmo não me importar tanto com o discurso alheio. Mas não consigo. Talvez por ter me silenciado durante tanto tempo e por saber que a realidade que vivemos é um congelamento reacionário.
Chega um momento da vida em que os gritos e sangramentos precisam transbordar. Até faz bem para o espírito e podemos usar como tática para a cooperação mutante.
<<Agrupar pelo afeto, o que nos move para intensificar o imenso desejo de transformação social. É sempre bom reforçar que os sistemas maquínicos em rede são máquinas de guerra potentes para novas militâncias do Império da Multidão, sobretudo para a evidência de uma nova contracultura>>
Temos que conviver diariamente com atos e discursos que diminuem nossa potência. E aí como agir perante a isso? Não consigo me silenciar. A violência perfura com todo o meu silenciamento interno. Sangra na alma.
Por outro lado, ainda não sei como agir perante a isso. Pois ao desconstruir o outro, podemos vir a presenciar o uso da violência sem limites e não é isso que queremos. A ideia é sempre promover o amor, a igualdade, a paz. Vejo que ainda preciso trabalhar isso em mim, nas formas de abordagens discursivas para uma mudança no outro, o fazendo divergir de sua própria ignorância.
Minha utopia é de um dia poder circular pelos territórios livremente e sem ter que conviver com a homofobia gratuita e todo esse discurso heterosexista que coloca a mulher num estado de objeto sexual, como se ela fosse apenas um pedaço de carne ao deleite dos falsos imperadores.
O que tenho percebido é que os discursos fascistas giram entorno da identidade, do ego, do eu. Parece-me que o ego veio a se tornar o grande cometa deste niilismo todo. Pois, é do senso comum pensar que somos estruturas coerentes onde o eu definiria nosso destino, nossa produção existencial, sobretudo, a produção desejante [pois fomos educados historicamente a conceber a vida por meio destes moldes reacionários, que já não se encaixam em nossa realidade atual].
Logo, o sexo e gênero não escapam desta corrente do eu. tornando-se duas estruturas que organizam a sua produção fictícia. No discurso fascista, tudo brota do gênero e do sexo, talvez seja pelo fato destas duas tecnologias de simulação definirem os papéis e destinos no campo social. Mas sabemos que não há como definir o espírito. somos meios transitórios, múltiplos, com uma virtualidade móvel e fluida.
A pós-humanidade tem nos equipado com um nova produção corporal e com uma nova subjetividade que não se assenta em estruturas organizativas. pois já vimos que toda essa organização do corpo em estruturas só veio a gerar violência sem limites [física e simbólica].
A ideia da pós-humanidade é a de produção existencial mais calcada na ética dos afetos e no prazer do que nos modelos de simulação da moralidade universal cristalizada no decorrer da história.
O desejo é uma força una, que foi aprisionada ao colocar todos os entes sob um mesmo molde [espécie humana] e pela materialização dos fluxos no decorrer da história humana.
Hoje, estamos a receber altas cargas de intensidade. Os circuítos elétricos que percorrem os corpus são demandas da livre produção desejante. Estamos vivenciando um processo de liberação do desejo, em decorrência da colocação das estruturas que congelaram o desejo em fluxo.
Neste processo de passagem de era, penso também numa ruptura fatal com o capitalismo, que já se encontra em seu processo de saturação de suas forças produtivas.
Através da cooperação maquínica entre as forças bárbaras e selvagens, penso na cristalização de um modelo social, político e econômico expresso por um anarco-comunismo.
Esta corrente deve buscar uma autogestão do campo social e uma autoregulação do universo prostético e pós-humano. O grande valor fundante deste prisma, parte dos mecanismos físico-químicos da ordem cósmica, que existencializa a igualdade, a lei do apoio mútuo e a lei da igualdade de gênero.
Mas para a materialização real desta nova produção existencial coletiva, é preciso que o Governo, a Lei da Terra, a Religião e o Eu sejam banidos, virem poeiras cósmicas inter-estelares... junto com toda os escombros do Império Patriarcal-Capitalista.
Este quatro pilares reacionários aprisionaram o homem em si mesmo [eu] e numa moral de senhor e escravo. É preciso banir o Estado e toda estrutura organizacional que inibe a livre produção desejante.
Ao gerir um novo centro político de gravidade da Terra, passaríamos a viver a vida de tal maneira que viver não tenha mais sentidos. não há sentido na vida, há apenas passagens de fluxos e intensidades que percorrem o encontro intensivo entre os corpus. o sentido é uma ideia fictícia própria da era iluminista.
A fabricação do novo motor da máquina social a partir do desmoronamento do império simbólico do capitalismo, será agenciada no seio desejante das tribos minoritárias e mutantes. O dispositivo da revolta social conectada ao intenso desejo de transformação social prepara o espírito revolucionário para transformação >> de si e do mundo.
A luta é a vida intensa. Produção intensiva de libertação do encarceramento do desejo. O corpo tornou-se impotente [estamos no século XXI e ainda mal sabemos o que pode o corpo!!!], em coma por ter lhe atribuido um organismo [o corpo em essência é sem organização].
A emancipação de si e do mundo clama pela liberdade absoluta, no dominiuum do pensamento e da ação. Sabemos que não há como agrupar todos os entes sob um mesmo molde, agrupando-os em conjuntos fechados de espécies. cada um é uma singularidade, com um conjunto específico de particularidades e um código genético singular. a produção de estruturas organizacionais inibiu o fluxo da mutação. somos entes múltiplos, transitórios e mutantes >> somos meios, não unidades!
Portanto, a revolução deve contornar o fim das fronteiras entre os corpus e também firmar uma continuidade na evolução pós-humana. Os fluxos da mutação devém a maquinar novos arranjus biopsquícos às multi-espécies de Gaia, assim como um novo sistemas operacional coletivo, que já vem sendo engendrado em nossos micro-cosmos.
COLPANI, Felipe Pancheri.
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