sexta-feira, 29 de maio de 2015

Rascunho de alguma coisa I - Amar é arte...

 Vejo as constituições dos afetos como o entrelaçar de dois campos existenciais diferentes, como a movimentação de placas tectônicas, que mobilizam os corpos para a construção de um novo continente que possuirá elementos de ambos e também partes de suas singularidades. Isso para qualquer afeto, amizade, amor, ódio, desprezo, etc. Campos existenciais podem compor existências, como também decompor, pode curar como envenenar as potências e os fluxos de vida.
Compor campos existenciais com fluxos de vida, com alegria e potência, demanda um esforço de fundir, em um nível mais profundo, duas existências. A profundidade da conexão dirá a intensidade com que esses fluxos estão entrelaçados e as potências para a criação de vida, para ampliação do existir. No campo da potência não se mede por duração, mais por intensidade de conexão, quanto mais intenso a conexão, mais potente ela é.
Entre todas as conexões a do amor é em suma a mais potente, pois amar, não no sentido romântico do conceito, envolve outro dois elementos, Desejos e Afetos. Desejo é a consciência de um apetite, ou seja, é a percepção pelo consciente de que o corpo sente falta ou vontade de algo, o corpo quer calor, apetite pelo calor, a mente tem consciência desse apetite e ele se torna um desejo, ai não pelo calor, mas pela roupa que lhe aquece. Outro apetite é o sexual, o corpo sente apetite pelo orgasmo, o Desejo se constitui pela personificação de um objeto que lhe fará alcançar esse orgasmo. Não necessariamente a visão tradicional de orgasmo. Mas no Eros tem que ter tesão.
Afeto é quando os campos existências começam a se entrelaçar, a outra pessoa começa a fazer parte da sua vida de modo que parte do que te constitui é ela e parte do que constitui ela é você, ou seja, vocês são parte e produto de uma relação. Mas isso não é só com a pessoa amada, somos assim com nossos pais, amigos, professores, etc. Todos que estão a nossa volta e possuem algum significado para nós, que nos afetam de alguma maneira, são parte de nós, querendo ou não. A diferença está que para a criação de uma relação é necessário o deslocamento após a implicação, ou seja, após perceber que os campos existenciais tendem a se unir, que a existência de um se entrelaça com a do outro, é preciso mover-se para então criar o novo. Eros então é deslocamento de si para o outro.
O deslocamento de si não é a perda de si, mas é fazer dos fluxos comuns um campo imanente para relação e tentar construir fluxos de vida comuns, porém é preciso manter sua integridade, i.e. se perceber que apesar dos dois se tornarem um na relação, ainda são dois. O campo existencial conjunto, fundido pelo fluxo de desejos e afetos que mobilizaram as placas existências e criam vulcões de potência, não é forma final da existência de ambos, mas parte de um território afetivo.
Perceber a dualidade unívoca é uma busca para a afirmação da relação, da construção do campo, da vivência, de si. A maturidade dos afetos está em se entregar e não se perder, em se lançar na relação, no instante-já, mas quando emergir dele se ver, reconhecer quais são seus desejos e desejos do outro e os desejos unidos. O ser perder é parte do processo, ficar imerso no fluxo dos desejos e afetos, sem conseguir distinguir o eu, o outro e o nós é um dos ciclos da existência afetiva, mas não é seu fim, não pode ser seu “ideal”.
Não quero com palavras definir o amor, nem dar conselhos de relação, nem filosofar sobre o indizível, mas expressar a complexidade do ato de amar. O medo da vida é o principal inimigo do afeto. O medo da dor, do sentir, do apegar-se, do se jogar em cada vivência como se fosse a única, mas consciente de que não é, sabendo que tem o amanhã, percebendo o mundo e o todo, mas não negar a si o prazer do agora. Sabe o futuro? Não existe! Sabe o passado? Você não vive...
Não quero uma filosofia vão do carpe diem, onde se vive o hoje pelo hoje, mas viver a intensidade do hoje, com consciência do ontem, com potência para o amanhã, mas sabendo que só existe o agora. Esse entregar-se a vida, consciente, reflexivo, coerente, mas o se saltar no viver, isso que a humanidade perdeu. A razão destruiu o afeto e só a intuição pode nos reconectar a essa vivência “superior”.
Compreender que a racionalidade, assim como a construção histórica e material da vida, não são as instâncias últimas dos afetos, das alegrias, das potências, porém nos fazem lidar melhor com elas, não nos perdemos nos caminhos e quando nos perdemos nos reencontrarmos. Até chegarmos a potência do sou-me. A vivência do instante-já, a confluência dos fluxos de potência de vida para a construção dos campos existenciais.
Amar é a intuição, intuição e racionalidade histórica materializada e afetivizada, é a superação fazendo da vida como obra de arte, sendo que arte em última instância é a necessidade de uma produção que demonstra o sentir que é indizível.
Em ultima instancia, amar é arte, cada relação é um ensaio, que não tem como objetivo ser perfeito, mas sim vivenciado em sua máxima intensidade.


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