Frida Kahlo, 1938, óleo sobre tela, 91cm x 70,5cm
Inseto, uma definição
boa para o modo como me sinto nos últimos tempos. Percebo-me uma larva, uma
daquelas que comem corpos em decomposição, sou eu, larvar comedora de corpo em
decomposição, adoradora de putrefação, da morte, do asqueroso e do nojento. Vivo
rastejando, comendo dejetos e restos, podre até a alma, ou melhor, um corpo
podre sem alma, sem espírito, sem a esperança do transcendente, só um corpo.
Este sou eu, nobre inseto comedor de carnes podres.
O motivo de me sentir
assim foi para mim um mistério por longo tempo, não sabia o motivo de me ver de
forma tão asquerosa, nojenta e depreciativa. Não que a nobre larva não tenha
seus encantos e sua função, de veras, os insetos são seres maravilhosos,
desprezados unicamente pelos humanos que não o compreendem, nem a sua beleza.
Mas o motivo de me ver desta forma não conseguia saber com total certeza,
principalmente nos dias que me transformava em um inseto.
Será que não sabia, ou
apenas não deseja ver o que realmente era, apesar de já ter falado sobre tantas
vezes, me sentia despreparado para ver, ser, sentir isso, algo completamente
desconexo da realidade. Como poderia, eu que praticamente berrava aos quatro
ventos o que sentia, poderia por algum motivo não ter certeza? Será que meus
berros eram uma tentativa de reafirmação? Um modo de me enganar? Por que
reafirmar todos os dias algo que era natural para mim?
Não saberia dizer, era
de fato estranho ter que me ver no espelho todo dia e todo dia dizer a mesma
coisa, as mesmas palavras, sorrir para mim e falar tudo bem, nada de mal em ser
assim, as pessoas que não te entendem, as pessoas que não conseguem lidar com o
diferente, mas será que são elas que não conseguem lidar com isso ou sou eu?
Não seria minha fraqueza em lidar com isso que me levava a pensar que os outros
não sabem lidar comigo? Não que todos me entendam, aceitem e compreendem o que
é viver como vivo, mas não seria eu, que após tanto tempo, ainda não sei lidar
com os meus sentimentos, com as minhas dores, meus sofrimentos?
A dor de ser assim, é
inexplicável, acho que muito acham bobagem falar tanto sobre algo que para eles
é tão natural, tão comum, tão banal, para mim não é, preciso falar, preciso
dizer o que sinto, o que penso, o que estou sofrendo, a escrita é a minha
salvação, minha libertação, se não falo, se não desabafo, me senti péssimo, os
dias que me calo são os dias mais inseto que me sinto, dias sem conseguir
expressar o que está aqui dentro, sem sair nenhuma palavra, nenhum sentimento,
dias que simplesmente não sei como dizer tudo o que estou passando e sentido,
queria apenas fugir do mundo, deixar tudo para trás e seguir rumo ao
desconhecido, um lugar que ninguém me conhecesse, nem eu mesmo.
Drama adolescente perto
dos trinta? Ridículo! Mas o ser humano é ridículo, não serei diferente de todos
os seres humanos, porem, será que isso é um drama juvenil, ou simplesmente um
sentimento que com o tempo tentamos rejeitar para poder viver feliz em um lugar
de pura infelicidade, dor e sofrimento, no qual nossos sentimentos, desejos e
anseios não são respeitados pelo outros, vivendo simplesmente um vazio, um nada
floreado de cores opacas e sem sentido, uma vida indescritível e um não nós, a
falta total do quem eu sou.
Vejo esse drama como a
minha tentativa diária de não rejeitar o que sinto e o que sou. Meus afetos não
são bem vistos, eu sei, meu desejos são reprovados em plena sociedade do século
XXI, mesmo depois de duas guerras mundiais, mortes e perseguições por séculos
dos que eram diferentes, dos que não se encaixavam na pureza cristã, na pureza
branca, na pureza europeia, na pureza do dominante impuro, mestiço, flagelado
como todos os outros, mas que vivia a ilusão de uma pureza, que tentava se
purificar para não se sentir o lixo que todos o falaram que ele era. Engraçado,
a sociedade escolhe seus lixos desprezados para governa-la rumo a sua pureza
superior, tão trágico e tão poético que chega a ser medonho.
Impureza, termo vazio
em si, somos todos impuros, de um modo ou de outro, mas queremos que nosso lado
“puro” seja o superior, o melhor, o que tenha valor no final. Somos todos seres
caídos de um paraíso fictícios ao qual tentamos desesperadamente retornar.
Queremos o jardim do Éden, a Jerusalém celestial, o lugar que nos traga paz,
mas na verdade queremos um lugar onde todos sejam iguais, pois acreditamos que
a homogeneização é a única paz libertadora possível. Jerusalém e o Éden são os
locais onde todos são iguais, tão iguais que se tornaram seres sem cores, sem
sexo, sem desejo e por fim sem sua humanidade, serão nada. No fundo, acho que
todos querem é ser nada, pois ser qualquer coisa que não um nada vazio e
abstrato algo que não precisa sentir ver ou viver, deve ser a maior libertação
possível, pois o nada termina com as incertezas, as impossibilidades, os
desafios, faz tudo ser algo único, vazio e sem sentido, tudo é nada.
A suavidade de um lugar
onde todos são iguais, pois não existem os diferentes, os opositores, os
depravados, os escandalosos, as cores, as multidões, são apenas as mesmas
pessoas, cópias de si, clones de um vazio, que futuro promissor o ser humano
tem, de uma potência de infinitas possibilidades ao nada. O que é o nirvana, a
transcendência, o céu, o paraíso, os lugares sagrados se não o fim do próprio
humano? Ser o humano é a tarefa mais complexa e difícil que poderia existir,
pois é ter as possibilidades infinitas da existência em um corpo mortal, finito
e incompleto, sendo que nunca seremos tudo, temos que escolher o que somos e
como vivemos dentro das possibilidades que possuímos é sem duvida um dilema e
um sofrimento constante, se você como eu for louco o suficiente para ficar
pensando nisso.
Nunca entendi qual o
mal com a loucura, sempre a achei um delírio que deveria ser vivido com a
máxima intensidade, só os loucos são realmente livres, não falo do patológico,
falo daqueles loucos que beiram a patologia aos olhos do social, mas tem a
profunda sanidade de não querer o social, esse loucos são fantásticos, Clarisse
Lispector, Cassandra Rios, Virginia Woolf, Hanna Arandt, Kafka, Nietzsche,
Marx, Oscar Wilde... loucos que viveram a insanidade do real na profundidade do
impossível, escolheram entre ser o que lhe era permitido e o que eles
desejavam, ficaram com seus desejos, com as possibilidades infinitas e mundanas
dos seus desejos.
Viver sendo o que você
sente ser, deseja ser, para onde seu corpo lhe encaminha, pessoas assim são
loucas, desejos livres, mentes abertas, corpos fluidos em direções sem
precedentes, só assim vivemos, enxergamos a totalidade real, passamos desse
mundo mesquinho e enfadonho para uma vivência profundamente insana e
verdadeira. Uma blasfêmia para muitos, a loucura é a blasfêmia, a força
demoníaca que há no ser humano, ridículo pensar assim, que a força criativa é
um demônio se foi Deus que soprou seu espírito em nós, a força repressiva é o
demônio, Deus é a loucura blasfêmia e libertadora de nossos medos.
Não há esperança no céu,
da vida eterna, da felicidade no paraíso, tudo isso é invenção do medo
demoníaco em nós, a liberdade divina é o livre arbítrio, a possibilidade de
viver quem somos no máximo de nossa potência, ser livre é comungar com Deus
diariamente para além da visão mística religiosa, mas na imanência de uma vida
plena do corpo. Minha libertação, hoje a vejo dessa forma, minha comunhão com o
divino, está em amar do modo que meu corpo, soprado pelo espírito do eterno,
encaminha meus desejos, infernal seria não obedecer a esse desejo divino que
está em nós, rejeitar quem somos é rejeitar a obra divina, viver a máxima
potência é encontrar a Substância Criadora do universo, abraça-la e comungar
com ela.
Meu encontro com a
Substância Criadora é pelo orgasmo, motivo do outros me rejeitarem, por eu
amplio minha potência do ser em uma explosão simples e vivida dos meus
desejos.
Sentia-me um inseto,
sim, algo desprezível, até entender que eu olhava para mim do modo como eu
imaginava os outros olhando, pensava em mim como inseto, pois achava que os
outros assim viam, me condenava pelo suposto julgamento dos outros sobre mim.
Estava em uma prisão sem grades, correntes, ou portas, condenado pela força do
meu próprio ódio sobre mim, me odiava, pois me ensinaram que odiar o que é
diferente era o certo, o correto, por isso esse ódio sem fim e mortal sobre os
meus sentimentos, meus desejos, meus afetos. Estava me destruindo, era uma morte
lenta, como de uma barata após longo período sem comida, que se definha
lentamente, arrastando seu corpo lento e quase decomposto pelo chão.
A maior dor que sentia
não era os olhares dos outros, mas meu próprio olhar sobre mim, algo que não
tem como expressar, me odiava, me condenava, não me aceitava, queria ser
esmagado, envenenado, rasgado ao meio, jogado em um lixo e esquecido, ter meu
corpo consumido pelas minhas irmãs larvas, comedoras de corpos em putrefação,
queria ser desfeito, que nem pós sobrassem. Desejava ansiosamente o nada
celestial, o fim, a luz branca que faria minha consciência apagar e não me
lembrar, voltar para o pó das estrelas e ver a grandiosidade bela do universo,
sem ter a consciência de quão belo ele é.
Escrevo agora, nem
melhor ou pior do que estava ontem, somente diferente, dia de loucura em meio à
lucidez, são dias loucos assim que me fazem escrever, pois os dias lúcidos me faz
desejar o fim, sobrevivo na loucura, pois sem ela morreria. Escrita sem fim de
algo que não sei bem para onde vai, saem turbilhões de palavras que tentam de
forma vã expressar esse momento de transição entre o desejo profundo da minha
morte e o desejo mais profundo ainda de viver. Escrevo tentando me entender
para poder me explicar para os outros, não o que sou ou o que sinto, mas os
motivos por ter sumido nos últimos dias, não ter vivido, não ter conseguido
fazer o prometido, sinto vergonha toda vez que sumo pela vergonha de existir,
vergonha da vergonha pela vergonha de ser.
Escrevo infinitamente,
escrevo, coloco as palavras em um papel para que quem leia veja que não vives
uma loucura sozinha, não tem um sentimento de solidão tão solitário como pensa,
somos todas abelhas de uma grande comeia, formigas desse grande formigueiro,
com a diferença de termos consciência disso, o que nos faz não seguir a rainha,
mas construir nossas próprias vidas, nossos reinos, nossos desejos, somos
livres e por isso mesmo, loucos.
D.C.R
Sorocaba 14/08/2015