sábado, 5 de setembro de 2015

{….}



Sou sempre o outro
Sou o encosto para as cabeças
O braço para o conforto
O sorriso para os que estão tristes
O ouvido para os que desabafam,
O olhar de apoio para os que precisam.
Mas sou só isso...!?

Partes de um corpo,
Partes, sem contorno
Sem alma ou expressão,
Sou tomado e usado,
Reduzido as minhas partes,
Reduzido ao nada...

Sou a desculpa
Um remendo para vidas fraturadas,
Remédio para doentes das almas,
Sou nada

Depois do corpo remendado
Após a alma sarada
Sou jogado no lixo
Esquecido

Sou nada

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Inseto... Louco...

Frida Kahlo, 1938, óleo sobre tela, 91cm x 70,5cm
Inseto, uma definição boa para o modo como me sinto nos últimos tempos. Percebo-me uma larva, uma daquelas que comem corpos em decomposição, sou eu, larvar comedora de corpo em decomposição, adoradora de putrefação, da morte, do asqueroso e do nojento. Vivo rastejando, comendo dejetos e restos, podre até a alma, ou melhor, um corpo podre sem alma, sem espírito, sem a esperança do transcendente, só um corpo. Este sou eu, nobre inseto comedor de carnes podres.
O motivo de me sentir assim foi para mim um mistério por longo tempo, não sabia o motivo de me ver de forma tão asquerosa, nojenta e depreciativa. Não que a nobre larva não tenha seus encantos e sua função, de veras, os insetos são seres maravilhosos, desprezados unicamente pelos humanos que não o compreendem, nem a sua beleza. Mas o motivo de me ver desta forma não conseguia saber com total certeza, principalmente nos dias que me transformava em um inseto.
Será que não sabia, ou apenas não deseja ver o que realmente era, apesar de já ter falado sobre tantas vezes, me sentia despreparado para ver, ser, sentir isso, algo completamente desconexo da realidade. Como poderia, eu que praticamente berrava aos quatro ventos o que sentia, poderia por algum motivo não ter certeza? Será que meus berros eram uma tentativa de reafirmação? Um modo de me enganar? Por que reafirmar todos os dias algo que era natural para mim?
Não saberia dizer, era de fato estranho ter que me ver no espelho todo dia e todo dia dizer a mesma coisa, as mesmas palavras, sorrir para mim e falar tudo bem, nada de mal em ser assim, as pessoas que não te entendem, as pessoas que não conseguem lidar com o diferente, mas será que são elas que não conseguem lidar com isso ou sou eu? Não seria minha fraqueza em lidar com isso que me levava a pensar que os outros não sabem lidar comigo? Não que todos me entendam, aceitem e compreendem o que é viver como vivo, mas não seria eu, que após tanto tempo, ainda não sei lidar com os meus sentimentos, com as minhas dores, meus sofrimentos?
A dor de ser assim, é inexplicável, acho que muito acham bobagem falar tanto sobre algo que para eles é tão natural, tão comum, tão banal, para mim não é, preciso falar, preciso dizer o que sinto, o que penso, o que estou sofrendo, a escrita é a minha salvação, minha libertação, se não falo, se não desabafo, me senti péssimo, os dias que me calo são os dias mais inseto que me sinto, dias sem conseguir expressar o que está aqui dentro, sem sair nenhuma palavra, nenhum sentimento, dias que simplesmente não sei como dizer tudo o que estou passando e sentido, queria apenas fugir do mundo, deixar tudo para trás e seguir rumo ao desconhecido, um lugar que ninguém me conhecesse, nem eu mesmo.
Drama adolescente perto dos trinta? Ridículo! Mas o ser humano é ridículo, não serei diferente de todos os seres humanos, porem, será que isso é um drama juvenil, ou simplesmente um sentimento que com o tempo tentamos rejeitar para poder viver feliz em um lugar de pura infelicidade, dor e sofrimento, no qual nossos sentimentos, desejos e anseios não são respeitados pelo outros, vivendo simplesmente um vazio, um nada floreado de cores opacas e sem sentido, uma vida indescritível e um não nós, a falta total do quem eu sou.
Vejo esse drama como a minha tentativa diária de não rejeitar o que sinto e o que sou. Meus afetos não são bem vistos, eu sei, meu desejos são reprovados em plena sociedade do século XXI, mesmo depois de duas guerras mundiais, mortes e perseguições por séculos dos que eram diferentes, dos que não se encaixavam na pureza cristã, na pureza branca, na pureza europeia, na pureza do dominante impuro, mestiço, flagelado como todos os outros, mas que vivia a ilusão de uma pureza, que tentava se purificar para não se sentir o lixo que todos o falaram que ele era. Engraçado, a sociedade escolhe seus lixos desprezados para governa-la rumo a sua pureza superior, tão trágico e tão poético que chega a ser medonho.
Impureza, termo vazio em si, somos todos impuros, de um modo ou de outro, mas queremos que nosso lado “puro” seja o superior, o melhor, o que tenha valor no final. Somos todos seres caídos de um paraíso fictícios ao qual tentamos desesperadamente retornar. Queremos o jardim do Éden, a Jerusalém celestial, o lugar que nos traga paz, mas na verdade queremos um lugar onde todos sejam iguais, pois acreditamos que a homogeneização é a única paz libertadora possível. Jerusalém e o Éden são os locais onde todos são iguais, tão iguais que se tornaram seres sem cores, sem sexo, sem desejo e por fim sem sua humanidade, serão nada. No fundo, acho que todos querem é ser nada, pois ser qualquer coisa que não um nada vazio e abstrato algo que não precisa sentir ver ou viver, deve ser a maior libertação possível, pois o nada termina com as incertezas, as impossibilidades, os desafios, faz tudo ser algo único, vazio e sem sentido, tudo é nada.
A suavidade de um lugar onde todos são iguais, pois não existem os diferentes, os opositores, os depravados, os escandalosos, as cores, as multidões, são apenas as mesmas pessoas, cópias de si, clones de um vazio, que futuro promissor o ser humano tem, de uma potência de infinitas possibilidades ao nada. O que é o nirvana, a transcendência, o céu, o paraíso, os lugares sagrados se não o fim do próprio humano? Ser o humano é a tarefa mais complexa e difícil que poderia existir, pois é ter as possibilidades infinitas da existência em um corpo mortal, finito e incompleto, sendo que nunca seremos tudo, temos que escolher o que somos e como vivemos dentro das possibilidades que possuímos é sem duvida um dilema e um sofrimento constante, se você como eu for louco o suficiente para ficar pensando nisso.
Nunca entendi qual o mal com a loucura, sempre a achei um delírio que deveria ser vivido com a máxima intensidade, só os loucos são realmente livres, não falo do patológico, falo daqueles loucos que beiram a patologia aos olhos do social, mas tem a profunda sanidade de não querer o social, esse loucos são fantásticos, Clarisse Lispector, Cassandra Rios, Virginia Woolf, Hanna Arandt, Kafka, Nietzsche, Marx, Oscar Wilde... loucos que viveram a insanidade do real na profundidade do impossível, escolheram entre ser o que lhe era permitido e o que eles desejavam, ficaram com seus desejos, com as possibilidades infinitas e mundanas dos seus desejos.
Viver sendo o que você sente ser, deseja ser, para onde seu corpo lhe encaminha, pessoas assim são loucas, desejos livres, mentes abertas, corpos fluidos em direções sem precedentes, só assim vivemos, enxergamos a totalidade real, passamos desse mundo mesquinho e enfadonho para uma vivência profundamente insana e verdadeira. Uma blasfêmia para muitos, a loucura é a blasfêmia, a força demoníaca que há no ser humano, ridículo pensar assim, que a força criativa é um demônio se foi Deus que soprou seu espírito em nós, a força repressiva é o demônio, Deus é a loucura blasfêmia e libertadora de nossos medos.
Não há esperança no céu, da vida eterna, da felicidade no paraíso, tudo isso é invenção do medo demoníaco em nós, a liberdade divina é o livre arbítrio, a possibilidade de viver quem somos no máximo de nossa potência, ser livre é comungar com Deus diariamente para além da visão mística religiosa, mas na imanência de uma vida plena do corpo. Minha libertação, hoje a vejo dessa forma, minha comunhão com o divino, está em amar do modo que meu corpo, soprado pelo espírito do eterno, encaminha meus desejos, infernal seria não obedecer a esse desejo divino que está em nós, rejeitar quem somos é rejeitar a obra divina, viver a máxima potência é encontrar a Substância Criadora do universo, abraça-la e comungar com ela.
Meu encontro com a Substância Criadora é pelo orgasmo, motivo do outros me rejeitarem, por eu amplio minha potência do ser em uma explosão simples e vivida dos meus desejos.
Sentia-me um inseto, sim, algo desprezível, até entender que eu olhava para mim do modo como eu imaginava os outros olhando, pensava em mim como inseto, pois achava que os outros assim viam, me condenava pelo suposto julgamento dos outros sobre mim. Estava em uma prisão sem grades, correntes, ou portas, condenado pela força do meu próprio ódio sobre mim, me odiava, pois me ensinaram que odiar o que é diferente era o certo, o correto, por isso esse ódio sem fim e mortal sobre os meus sentimentos, meus desejos, meus afetos. Estava me destruindo, era uma morte lenta, como de uma barata após longo período sem comida, que se definha lentamente, arrastando seu corpo lento e quase decomposto pelo chão.
A maior dor que sentia não era os olhares dos outros, mas meu próprio olhar sobre mim, algo que não tem como expressar, me odiava, me condenava, não me aceitava, queria ser esmagado, envenenado, rasgado ao meio, jogado em um lixo e esquecido, ter meu corpo consumido pelas minhas irmãs larvas, comedoras de corpos em putrefação, queria ser desfeito, que nem pós sobrassem. Desejava ansiosamente o nada celestial, o fim, a luz branca que faria minha consciência apagar e não me lembrar, voltar para o pó das estrelas e ver a grandiosidade bela do universo, sem ter a consciência de quão belo ele é.
Escrevo agora, nem melhor ou pior do que estava ontem, somente diferente, dia de loucura em meio à lucidez, são dias loucos assim que me fazem escrever, pois os dias lúcidos me faz desejar o fim, sobrevivo na loucura, pois sem ela morreria. Escrita sem fim de algo que não sei bem para onde vai, saem turbilhões de palavras que tentam de forma vã expressar esse momento de transição entre o desejo profundo da minha morte e o desejo mais profundo ainda de viver. Escrevo tentando me entender para poder me explicar para os outros, não o que sou ou o que sinto, mas os motivos por ter sumido nos últimos dias, não ter vivido, não ter conseguido fazer o prometido, sinto vergonha toda vez que sumo pela vergonha de existir, vergonha da vergonha pela vergonha de ser.
Escrevo infinitamente, escrevo, coloco as palavras em um papel para que quem leia veja que não vives uma loucura sozinha, não tem um sentimento de solidão tão solitário como pensa, somos todas abelhas de uma grande comeia, formigas desse grande formigueiro, com a diferença de termos consciência disso, o que nos faz não seguir a rainha, mas construir nossas próprias vidas, nossos reinos, nossos desejos, somos livres e por isso mesmo, loucos.


D.C.R
Sorocaba 14/08/2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

´[DEVANEIOS: DESEJOS E TRAUMAS]

como libertar um corpo castrado pelos traumas sedimentados num inconsciente codificado em cenas familiares? por acontecimentos passados que mais parecem atuar como fantasmas da impotência?

vivi por muito tempo num ambiente familiar ultra-conservador, numa cidadezinha agrária do interior de S. Paulo com um pai tirânico e dominador... que me submetia e submetia minha mãe a torturas psicológicas. conforme fui crescendo neste nicho de violência fui produzindo um inconsciente repleto de forças de captura. fantasmas internos que teciam uma existência fadada a não existência, a impotência, a castração. cresci sem juventude, sem amor, fechei-me num mundo interno com baixa auto-estima, gordo e sem atrativos físicos e intelectuais para ser desejado por um ser qualquer. mas ainda sim, muito consciente de quem eu era em potência, apenas não dava vazão a sua efetuação.

ter crescido sem existência na Terra, me fez crescer enquanto força que subsiste em si mesmo e que faz acontecer. esta grande força com o nome de Desejo. de mudança e de transformação.

..o Desejo... se soubestes a potência de um desejar na mão de um tecelão..

penso no esquecimento como uma potência, a dobra de elevação da vida a novas paisagens existenciais. um esquecimento que transforma um pobre inconsciente tradicionalista e heterocodificado em Édipo, castrado na cena familiar, em um inconsciente político, de transformação social, de união, de pertencimento, o retorno do sentido natural da vida, de se viver em potência de acontecimento. a vida como uma obra de arte. bela e intensa.

não há potência de vida sem a transformação e sem a diferença. sem os devires que nos desdobram a novos vetores de produção existencial. falo isto no sentido interno, de quem nós somos, como também no sentido de transformação da sociedade... o movimento de um copus que se desfaz a todo instante para dar germe a uma nova identidade, deixando marcas de si no espaço e nos corpus. 

não há revolução social sem revolução do desejo. não há revolução sem uma transformação do desejo. o desejo não só modela a vida como modela quem nós somos. a potência está na virtualidade, todo fluxo energético cósmico [orgônio] encontra-se condensado na sua mente. temos a potência inata de fazer acontecer, de tecer realidade. digo que quanto mais damos vazão a quem nós somos em virtualidade, mais potentes somos... colocando o desejo em autoprodução de si mesmo. 

..então lhe pergunto: você deseja? você constrói realidade?


COLPANI, Felipe P.






terça-feira, 18 de agosto de 2015

[DEVANEIOS]

só te quero assim, perfeitx. mergulhar sob esta beleza alienígena. no desconhecido nonde se encontra todo nosso encaixa, nosso choque de partículas, tão cheio de intensidades. só te quero assim, perfeitx de tão imperfeitx. tortx-desarticuladx. 

um sentimento. um afeto. uma coagulação entre partículas desejantes que se atraem por forças das Natureza... puro acontecimento de Ser e Estar na Terra. o desejo nos autopreenche em sua perfeição de auto-acontecimento, cabe a cada singularidade saber remanejá-lo. 

de tudo que nos é sólido e se desmancha no ar, o desejo é a força que nos subsiste. em meu pior momento de vida, de dor, de descobrimento de minha Singularidade [momento que veio a se tecer justamente em fase de engenharia da pesquisa, o que acabou me gerando uma série de crises], fui me despertar da potência do desejo, da criação que se efetiva no real. 

eu diria que o desejo é um processo de tecer, de engendramento com carga energética que faz os acontecimentos tenderem a uma finalidade concreta. a produção virtual do corpo ainda é um território subterrâneo bastante desconhecido a razão demasiada humana. Spinoza estava bastante certo ao afirmar que ainda mal sabemos o que pode um corpo. o corpo existe com uma capacidade vital  e incrível de afetar e ser afetado. é pura potência de criação onde não há limitações, repressões, negatividades. 

o desejo me é algo majestoso. é a força primitiva reprimida em sociedade que estás a elevar e a efetivar a Vontade de Potência. as estruturas reprimem nosso elemento vital [orgônio-desejo-fluxocósmicodaSingularidade] porque sabem que é dele que se nutrem os novos corte da história.


enfim… apenas devaneios de um esquizofrênico solitário!

COLPANI, Felipe P.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Encontros


- Larga de ser assim, me agarra que você melhora! - falou o Amor para a Solidão.
Mas como poderia ela, a nobre senhora do vazio profundo, largar aquilo que lhe constituía e se juntar ao amor, que tão oposto a ele era.
- Não consigo, se deixar não serei mais eu!
O Amor sorri, um grande e belo sorriso, sem disfarçar de forma alguma a percepção irônica que teve da fala da solidão. Ela chateada fecha ainda mais a cara já ranzinza que possuía.
- Como pode ser tão grosseiro assim, rir da minha dor solitária e impossível de ser compartilhada, da minha infelicidade.
Ainda com o sorriso no rosto, o amor se aproxima da solidão, sua presença feliz e alegre a perturba “como pode alguém ser tão contente, felicidade de mais me causa enjoo” pensou ela, mas, na verdade, a solidão detestava qualquer tipo de felicidade, por menor que fosse.
- Mas nem sempre foi Solidão, já se chamaste Alegria e antes disso foste Saudade, também já se chamou Amor!
- Não seja ridículo, como se isso fosse possível para você, nunca fui outra coisa além de Solidão!
O Amor com sorriso simpático, com sua áurea que imanava uma luz vermelha, chega mais perto de solidão. Aquela aproximação toda incomoda a solidão, “como pode esse ser chegar tão perto assim que atrevimento, não sabe que sou a solidão e isso implica ficar sem falar com ninguém!”, pensa ela revoltada com tamanha ousadia do amor.
- Eu já fui Tristeza, antes era Solidão, pouco antes disso fui Alegria, antes era Inocência, agora sou o Amor. Todos nós nos modificamos nos tornamos aquilo que sentimos ser, refletimos fora o que grita dentro.
- Amor, tu és realmente ridículo, acho que não tem sentimento mais ridículo que você! - Solidão parece cada vez mais Impaciente e Transtornada com ser tão chato e intrometido – Então me diga Amor, como deixou de ser Tristeza para se tornar Amor?
- Simples, me encontrei com você!
Solidão olha para ele transtornada, já estava deixando de ser Solidão para ser Ódio, ficou profundamente irritada com tamanho disparate que aquele ser “ridículo, insuportável, sem lógica...”, lhe dizia.
- E como eu, a senhora Solidão, transformei o nobre senhor Tristeza em Amor? Qual foi a mágica que eu fiz?
- Nenhuma. - Responde amor com um sorriso ainda mais belo no rosto, o que deixou solidão Consternada – Apenas nos encontramos!
- Então quer dizer que ao se encontrar comigo, você simplesmente mudou? - Aquela conversa toda fez Solidão quase explodir em Ódio! - Então quer dizer que se eu largar essa minha Solidão, te agarrar, serei transformada em Amor também?
- Não sei. - diz Amor pensativo – só sei que igual não ficará, não tenho a capacidade de fazer a mudança para lado nenhum, só lhe ofereço o encontro, o que mudar depende do que o encontrar fará com você!
A Solidão olha para Amor pensativa, “não é que tem um sorriso bonito”, fica Consternada com o próprio pensamento, por um instante, quase que uma microfração de tempo, Solidão virou Vontade. Isso era impossível, como assim, Solidão não poderia ser também Vontade. Mas Vontade foi crescendo em Solidão, vontade de abraçar o Amor, de sentir seu calor, de sentir seus braços, a textura de sua pele, seus lábios, “como será que são os beijos do Amor?”.
Algo parecido com uma onda elétrica explode em seu corpo, quando percebe Vontade está beijando Amor, um beijo tão forte, profundo, que faz o corpo de Vontade aquecer, parece que a Vontade iria se incendiar de algo que não entendia o que era. Quando percebeu, Vontade, que até agora pouco era Solidão, tinha se transformado em Paixão, mas não qualquer Paixão, era agora Paixão Desejante, uma singularidade muito forte, que pode vir um pouco antes do Amor.

D.C.R
17/08/2015


sábado, 15 de agosto de 2015

D


Sempre achei o amor algo ridículo, não sei o motivo desse meu desprezo profundo pelo amor, sentimento tão idiota, quem ama geralmente fica abobalhado, não pensa racionalmente, faz coisas estúpidas. Qual é o significado de enviar flores para alguém? Ou caixa de chocolate? Ou então cartas, bilhetes, cartões? Coisas completamente sem sentido. Uma amiga me dizia que eu era a-romântico, ou seja, incapaz de sentir qualquer sentimento romântico por alguém, engraçado, esse povo gosta de arrumar nome pra tudo. Estava junto com os assexuais, ou coisa do tipo...
Achei tudo isso um desperdício de tempo, para que definir o que é que sou, o que sinto ou que deixo de sentir? A nomenclatura de tudo era cansativo, para que nomear? Tinha um amigo gay que não curtia penetração, fazia a guinagem, algo relacionado ao amor lésbico, ou seja, sem a necessidade de ter um pau entrando em algum lugar. Mas cada um sabe como é a vida que quer levar, a minha eu queria com muito sexo e nenhum amor. Ficar apegado a uma pessoa, sentir falta ou vontade constante da presença dela era algo que me deixava enjoado só de pensar. Não precisava nomear isso...
Apesar que o sexo para mim não era algo que desejava com frequência, preferia outras coisas, diziam que era assexual, não sei... realmente nomes pra que? Não sei se eu me encaixo nessa classificação, mas só gostava de sexo quando estava com muita vontade, gostava de fazer com algumas parceiras e parceiros que tinha conhecido durante esses anos e aceitavam minhas luas e vontades. Eram contratos de prazer, a gente ligava um para o outro, se os dois corpos estavam afim rolava, se não, era mais uma saída para conversar.
Em uma dessas saídas para conversar, uma amiga levou D, esse era o nome da pessoa. Trato aqui como pessoa pois D não se defina nem como homem ou mulher, era não “binaries”, como me explicou, preferia a indefinição, qualquer um dos dois papéis para D era ridículo. Tanto que de fato era difícil definir como designaram D ao nascer, se homem ou mulher, usava roupas que serviriam para os dois, não aparentava ter seios, os quadris não eram largos, não parecia ter barba e o cabelo curto deixava seu rosto sem um desenho definível.
A indefinição de D me era encantadora, despertou em mim um sentimento que não sabia como definir, conversamos por horas sem para, a minha amiga que tinha trazido D se foi, fiquei responsável por levar D para casa. Eram quase quatro da manhã, o bar fechando, mas a conversa continuava incrível. Pagamos a conta e D me convidou para entrar quando parei na porta de sua casa. Me preparou um café, conversamos mais, eram dez da manhã e ainda estávamos ali, falando, sobre tudo e nada, tinha momentos que ficávamos um olhando para o outro.

Então percebi que estava amando D, pois só poderia ser isso esse sentimento que sentia por aquela pessoa maravilhosa que estava comigo, no chão da sala, as dez da manhã de um sábado, falando sobre o sol que cortava as cortinas da sala e como ele gerava uma luz bonita sobre a mesa de centro. Nos beijamos, fixemos amor. Fiquei em sua casa até a noite, depois foi para a minha. Passamos seis meses nesse um dia lá outro cá, até que resolvemos morar na mesma casa. Casamos. Faz dez anos, mas acordo querendo que D seja a primeira pessoa a ver de manhã e a última de noite, escrevo cartas, poesias, bilhetes, faço café da manhã... Hoje entendo o que é amor... D é militante, me ensinou a importância das nomenclaturas, das definições, da ação política, com D encontrei as respostas, perguntas e o mais importante, alguém com quem dividir a vida.
D.C.R
Sorocaba, 15/08/2015

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

[O AMOR]

o amor é a força desejante de elevação e afirmação que pouco condiz ao corpo, a matéria. 

o amor refere-se a conexão entre dois corpus que coabitam o mesmo Desejo, a mesma Vontade de efetuação. é um princípio cósmico, um desdobramento natural que envolve os modos singulares que coabitam a condição humana, com raízes desconhecidos a nossa razão, pois não há código capaz de raciocinar o amor. o amor é uma força a ser sentida, vivida e refletida entre dois corpus que se nutrem virtualmente, formando uma mesma Singularidade. 

é uma produção a ser tecida, criada e mantida no agenciamento afetivo...  o amor, a priori, fertiliza-se na virtualidade em face da conexão entre duas almas que se misturam e que passam a tecer uma mesma paisagem desejante. da virtualidade, ele passa a desdobra-se a materialidade e logo, a efetivação real. 

o amor se expressa como uma automanifestação eterna de beleza da vida - perfeição divina contemplada pela Singularidade. se expressa como uma realidade espiritual do Desejo, onde o eu passa a fragmentar-se em afetos e momentos sob uma união divina. 

quando há desejo, o amor se tece sob um movimento próprio, criando as próprias condições de perseverança em nossa Ser, a caminho das verdades eternas, do equilíbrio e da beleza que é se viver sob um Ética dos Afetos, nos conduzindo a uma nova dimensão de ser e estados de consciência, produções virtuais próprias do ato do amor. o amor é como uma droga e estás a liberar diferentes estados de consciência sob correntes de intensidades que atravessam o Desejo.


                                                  COLPANI, Felipe P.