Sempre achei o amor algo ridículo,
não sei o motivo desse meu desprezo profundo pelo amor, sentimento
tão idiota, quem ama geralmente fica abobalhado, não pensa
racionalmente, faz coisas estúpidas. Qual é o significado de enviar
flores para alguém? Ou caixa de chocolate? Ou então cartas,
bilhetes, cartões? Coisas completamente sem sentido. Uma amiga me
dizia que eu era a-romântico, ou seja, incapaz de sentir qualquer
sentimento romântico por alguém, engraçado, esse povo gosta de
arrumar nome pra tudo. Estava junto com os assexuais, ou coisa do
tipo...
Achei tudo isso um desperdício de
tempo, para que definir o que é que sou, o que sinto ou que deixo de
sentir? A nomenclatura de tudo era cansativo, para que nomear? Tinha
um amigo gay que não curtia penetração, fazia a guinagem, algo
relacionado ao amor lésbico, ou seja, sem a necessidade de ter um
pau entrando em algum lugar. Mas cada um sabe como é a vida que quer
levar, a minha eu queria com muito sexo e nenhum amor. Ficar apegado
a uma pessoa, sentir falta ou vontade constante da presença dela era
algo que me deixava enjoado só de pensar. Não precisava nomear
isso...
Apesar que o sexo para mim não era
algo que desejava com frequência, preferia outras coisas, diziam que
era assexual, não sei... realmente nomes pra que? Não sei se eu me
encaixo nessa classificação, mas só gostava de sexo quando estava
com muita vontade, gostava de fazer com algumas parceiras e parceiros
que tinha conhecido durante esses anos e aceitavam minhas luas e
vontades. Eram contratos de prazer, a gente ligava um para o outro,
se os dois corpos estavam afim rolava, se não, era mais uma saída
para conversar.
Em uma dessas saídas para conversar,
uma amiga levou D, esse era o nome da pessoa. Trato aqui como pessoa
pois D não se defina nem como homem ou mulher, era não “binaries”,
como me explicou, preferia a indefinição, qualquer um dos dois
papéis para D era ridículo. Tanto que de fato era difícil definir
como designaram D ao nascer, se homem ou mulher, usava roupas que
serviriam para os dois, não aparentava ter seios, os quadris não
eram largos, não parecia ter barba e o cabelo curto deixava seu
rosto sem um desenho definível.
A indefinição de D me era
encantadora, despertou em mim um sentimento que não sabia como
definir, conversamos por horas sem para, a minha amiga que tinha
trazido D se foi, fiquei responsável por levar D para casa. Eram
quase quatro da manhã, o bar fechando, mas a conversa continuava
incrível. Pagamos a conta e D me convidou para entrar quando parei
na porta de sua casa. Me preparou um café, conversamos mais, eram
dez da manhã e ainda estávamos ali, falando, sobre tudo e nada,
tinha momentos que ficávamos um olhando para o outro.
Então percebi que estava amando D,
pois só poderia ser isso esse sentimento que sentia por aquela
pessoa maravilhosa que estava comigo, no chão da sala, as dez da
manhã de um sábado, falando sobre o sol que cortava as cortinas da
sala e como ele gerava uma luz bonita sobre a mesa de centro. Nos
beijamos, fixemos amor. Fiquei em sua casa até a noite, depois foi
para a minha. Passamos seis meses nesse um dia lá outro cá, até
que resolvemos morar na mesma casa. Casamos. Faz dez anos, mas acordo
querendo que D seja a primeira pessoa a ver de manhã e a última de
noite, escrevo cartas, poesias, bilhetes, faço café da manhã...
Hoje entendo o que é amor... D é militante, me ensinou a
importância das nomenclaturas, das definições, da ação política,
com D encontrei as respostas, perguntas e o mais importante, alguém
com quem dividir a vida.
D.C.R
Sorocaba, 15/08/2015
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