sábado, 15 de agosto de 2015

D


Sempre achei o amor algo ridículo, não sei o motivo desse meu desprezo profundo pelo amor, sentimento tão idiota, quem ama geralmente fica abobalhado, não pensa racionalmente, faz coisas estúpidas. Qual é o significado de enviar flores para alguém? Ou caixa de chocolate? Ou então cartas, bilhetes, cartões? Coisas completamente sem sentido. Uma amiga me dizia que eu era a-romântico, ou seja, incapaz de sentir qualquer sentimento romântico por alguém, engraçado, esse povo gosta de arrumar nome pra tudo. Estava junto com os assexuais, ou coisa do tipo...
Achei tudo isso um desperdício de tempo, para que definir o que é que sou, o que sinto ou que deixo de sentir? A nomenclatura de tudo era cansativo, para que nomear? Tinha um amigo gay que não curtia penetração, fazia a guinagem, algo relacionado ao amor lésbico, ou seja, sem a necessidade de ter um pau entrando em algum lugar. Mas cada um sabe como é a vida que quer levar, a minha eu queria com muito sexo e nenhum amor. Ficar apegado a uma pessoa, sentir falta ou vontade constante da presença dela era algo que me deixava enjoado só de pensar. Não precisava nomear isso...
Apesar que o sexo para mim não era algo que desejava com frequência, preferia outras coisas, diziam que era assexual, não sei... realmente nomes pra que? Não sei se eu me encaixo nessa classificação, mas só gostava de sexo quando estava com muita vontade, gostava de fazer com algumas parceiras e parceiros que tinha conhecido durante esses anos e aceitavam minhas luas e vontades. Eram contratos de prazer, a gente ligava um para o outro, se os dois corpos estavam afim rolava, se não, era mais uma saída para conversar.
Em uma dessas saídas para conversar, uma amiga levou D, esse era o nome da pessoa. Trato aqui como pessoa pois D não se defina nem como homem ou mulher, era não “binaries”, como me explicou, preferia a indefinição, qualquer um dos dois papéis para D era ridículo. Tanto que de fato era difícil definir como designaram D ao nascer, se homem ou mulher, usava roupas que serviriam para os dois, não aparentava ter seios, os quadris não eram largos, não parecia ter barba e o cabelo curto deixava seu rosto sem um desenho definível.
A indefinição de D me era encantadora, despertou em mim um sentimento que não sabia como definir, conversamos por horas sem para, a minha amiga que tinha trazido D se foi, fiquei responsável por levar D para casa. Eram quase quatro da manhã, o bar fechando, mas a conversa continuava incrível. Pagamos a conta e D me convidou para entrar quando parei na porta de sua casa. Me preparou um café, conversamos mais, eram dez da manhã e ainda estávamos ali, falando, sobre tudo e nada, tinha momentos que ficávamos um olhando para o outro.

Então percebi que estava amando D, pois só poderia ser isso esse sentimento que sentia por aquela pessoa maravilhosa que estava comigo, no chão da sala, as dez da manhã de um sábado, falando sobre o sol que cortava as cortinas da sala e como ele gerava uma luz bonita sobre a mesa de centro. Nos beijamos, fixemos amor. Fiquei em sua casa até a noite, depois foi para a minha. Passamos seis meses nesse um dia lá outro cá, até que resolvemos morar na mesma casa. Casamos. Faz dez anos, mas acordo querendo que D seja a primeira pessoa a ver de manhã e a última de noite, escrevo cartas, poesias, bilhetes, faço café da manhã... Hoje entendo o que é amor... D é militante, me ensinou a importância das nomenclaturas, das definições, da ação política, com D encontrei as respostas, perguntas e o mais importante, alguém com quem dividir a vida.
D.C.R
Sorocaba, 15/08/2015

Nenhum comentário:

Postar um comentário