quarta-feira, 19 de agosto de 2015

´[DEVANEIOS: DESEJOS E TRAUMAS]

como libertar um corpo castrado pelos traumas sedimentados num inconsciente codificado em cenas familiares? por acontecimentos passados que mais parecem atuar como fantasmas da impotência?

vivi por muito tempo num ambiente familiar ultra-conservador, numa cidadezinha agrária do interior de S. Paulo com um pai tirânico e dominador... que me submetia e submetia minha mãe a torturas psicológicas. conforme fui crescendo neste nicho de violência fui produzindo um inconsciente repleto de forças de captura. fantasmas internos que teciam uma existência fadada a não existência, a impotência, a castração. cresci sem juventude, sem amor, fechei-me num mundo interno com baixa auto-estima, gordo e sem atrativos físicos e intelectuais para ser desejado por um ser qualquer. mas ainda sim, muito consciente de quem eu era em potência, apenas não dava vazão a sua efetuação.

ter crescido sem existência na Terra, me fez crescer enquanto força que subsiste em si mesmo e que faz acontecer. esta grande força com o nome de Desejo. de mudança e de transformação.

..o Desejo... se soubestes a potência de um desejar na mão de um tecelão..

penso no esquecimento como uma potência, a dobra de elevação da vida a novas paisagens existenciais. um esquecimento que transforma um pobre inconsciente tradicionalista e heterocodificado em Édipo, castrado na cena familiar, em um inconsciente político, de transformação social, de união, de pertencimento, o retorno do sentido natural da vida, de se viver em potência de acontecimento. a vida como uma obra de arte. bela e intensa.

não há potência de vida sem a transformação e sem a diferença. sem os devires que nos desdobram a novos vetores de produção existencial. falo isto no sentido interno, de quem nós somos, como também no sentido de transformação da sociedade... o movimento de um copus que se desfaz a todo instante para dar germe a uma nova identidade, deixando marcas de si no espaço e nos corpus. 

não há revolução social sem revolução do desejo. não há revolução sem uma transformação do desejo. o desejo não só modela a vida como modela quem nós somos. a potência está na virtualidade, todo fluxo energético cósmico [orgônio] encontra-se condensado na sua mente. temos a potência inata de fazer acontecer, de tecer realidade. digo que quanto mais damos vazão a quem nós somos em virtualidade, mais potentes somos... colocando o desejo em autoprodução de si mesmo. 

..então lhe pergunto: você deseja? você constrói realidade?


COLPANI, Felipe P.






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