como
libertar um corpo castrado pelos traumas sedimentados num
inconsciente codificado em cenas familiares? por acontecimentos
passados que mais parecem atuar como fantasmas da impotência?
vivi
por muito tempo num ambiente familiar
ultra-conservador, numa cidadezinha agrária do interior de S. Paulo
com um pai tirânico e dominador... que me submetia e
submetia minha mãe a torturas psicológicas. conforme fui crescendo
neste nicho de violência fui produzindo um inconsciente repleto de
forças de captura. fantasmas internos que teciam uma existência
fadada a não existência, a impotência, a castração. cresci sem
juventude, sem amor, fechei-me num mundo interno com baixa auto-estima, gordo e sem atrativos físicos
e intelectuais para ser desejado por um ser qualquer. mas ainda sim,
muito consciente de quem eu era em potência, apenas não dava vazão
a sua efetuação.
ter
crescido sem existência na Terra, me fez crescer enquanto força que
subsiste em si mesmo e que faz acontecer. esta grande força com o
nome de Desejo. de mudança e de transformação.
..o Desejo... se soubestes a potência de um desejar na mão de um
tecelão..
penso no esquecimento como uma potência, a dobra de elevação da vida a novas paisagens existenciais. um esquecimento que
transforma um pobre inconsciente tradicionalista e heterocodificado
em Édipo, castrado na cena familiar, em um inconsciente político,
de transformação social, de união, de pertencimento, o retorno do
sentido natural da vida, de se viver em potência de acontecimento. a vida como uma obra de arte. bela e intensa.
não
há potência de vida sem a transformação e sem a diferença. sem
os devires que nos desdobram a novos vetores de produção existencial. falo isto no sentido interno, de quem
nós somos, como também no sentido de transformação da sociedade... o movimento de um copus que se desfaz a todo instante para dar germe
a uma nova identidade, deixando marcas de si no espaço e nos corpus.
não há revolução social sem revolução do
desejo. não há revolução sem uma transformação do desejo. o desejo não só modela a vida como modela quem nós somos. a potência
está na virtualidade, todo fluxo energético cósmico [orgônio]
encontra-se condensado na sua mente. temos a potência inata de fazer
acontecer, de tecer realidade. digo que quanto mais damos vazão a
quem nós somos em virtualidade, mais potentes somos... colocando o
desejo em autoprodução de si mesmo.
..então lhe pergunto: você deseja? você constrói
realidade?
COLPANI, Felipe P.

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