segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Encontros


- Larga de ser assim, me agarra que você melhora! - falou o Amor para a Solidão.
Mas como poderia ela, a nobre senhora do vazio profundo, largar aquilo que lhe constituía e se juntar ao amor, que tão oposto a ele era.
- Não consigo, se deixar não serei mais eu!
O Amor sorri, um grande e belo sorriso, sem disfarçar de forma alguma a percepção irônica que teve da fala da solidão. Ela chateada fecha ainda mais a cara já ranzinza que possuía.
- Como pode ser tão grosseiro assim, rir da minha dor solitária e impossível de ser compartilhada, da minha infelicidade.
Ainda com o sorriso no rosto, o amor se aproxima da solidão, sua presença feliz e alegre a perturba “como pode alguém ser tão contente, felicidade de mais me causa enjoo” pensou ela, mas, na verdade, a solidão detestava qualquer tipo de felicidade, por menor que fosse.
- Mas nem sempre foi Solidão, já se chamaste Alegria e antes disso foste Saudade, também já se chamou Amor!
- Não seja ridículo, como se isso fosse possível para você, nunca fui outra coisa além de Solidão!
O Amor com sorriso simpático, com sua áurea que imanava uma luz vermelha, chega mais perto de solidão. Aquela aproximação toda incomoda a solidão, “como pode esse ser chegar tão perto assim que atrevimento, não sabe que sou a solidão e isso implica ficar sem falar com ninguém!”, pensa ela revoltada com tamanha ousadia do amor.
- Eu já fui Tristeza, antes era Solidão, pouco antes disso fui Alegria, antes era Inocência, agora sou o Amor. Todos nós nos modificamos nos tornamos aquilo que sentimos ser, refletimos fora o que grita dentro.
- Amor, tu és realmente ridículo, acho que não tem sentimento mais ridículo que você! - Solidão parece cada vez mais Impaciente e Transtornada com ser tão chato e intrometido – Então me diga Amor, como deixou de ser Tristeza para se tornar Amor?
- Simples, me encontrei com você!
Solidão olha para ele transtornada, já estava deixando de ser Solidão para ser Ódio, ficou profundamente irritada com tamanho disparate que aquele ser “ridículo, insuportável, sem lógica...”, lhe dizia.
- E como eu, a senhora Solidão, transformei o nobre senhor Tristeza em Amor? Qual foi a mágica que eu fiz?
- Nenhuma. - Responde amor com um sorriso ainda mais belo no rosto, o que deixou solidão Consternada – Apenas nos encontramos!
- Então quer dizer que ao se encontrar comigo, você simplesmente mudou? - Aquela conversa toda fez Solidão quase explodir em Ódio! - Então quer dizer que se eu largar essa minha Solidão, te agarrar, serei transformada em Amor também?
- Não sei. - diz Amor pensativo – só sei que igual não ficará, não tenho a capacidade de fazer a mudança para lado nenhum, só lhe ofereço o encontro, o que mudar depende do que o encontrar fará com você!
A Solidão olha para Amor pensativa, “não é que tem um sorriso bonito”, fica Consternada com o próprio pensamento, por um instante, quase que uma microfração de tempo, Solidão virou Vontade. Isso era impossível, como assim, Solidão não poderia ser também Vontade. Mas Vontade foi crescendo em Solidão, vontade de abraçar o Amor, de sentir seu calor, de sentir seus braços, a textura de sua pele, seus lábios, “como será que são os beijos do Amor?”.
Algo parecido com uma onda elétrica explode em seu corpo, quando percebe Vontade está beijando Amor, um beijo tão forte, profundo, que faz o corpo de Vontade aquecer, parece que a Vontade iria se incendiar de algo que não entendia o que era. Quando percebeu, Vontade, que até agora pouco era Solidão, tinha se transformado em Paixão, mas não qualquer Paixão, era agora Paixão Desejante, uma singularidade muito forte, que pode vir um pouco antes do Amor.

D.C.R
17/08/2015


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