-
Larga de ser assim, me agarra que você melhora! - falou o Amor para a Solidão.
Mas
como poderia ela, a nobre senhora do vazio profundo, largar aquilo que lhe
constituía e se juntar ao amor, que tão oposto a ele era.
-
Não consigo, se deixar não serei mais eu!
O
Amor sorri, um grande e belo sorriso, sem disfarçar de forma alguma a percepção
irônica que teve da fala da solidão. Ela chateada fecha ainda mais a cara já
ranzinza que possuía.
-
Como pode ser tão grosseiro assim, rir da minha dor solitária e impossível de
ser compartilhada, da minha infelicidade.
Ainda
com o sorriso no rosto, o amor se aproxima da solidão, sua presença feliz e
alegre a perturba “como pode alguém ser tão contente, felicidade de mais me
causa enjoo” pensou ela, mas, na verdade, a solidão detestava qualquer tipo de
felicidade, por menor que fosse.
-
Mas nem sempre foi Solidão, já se chamaste Alegria e antes disso foste Saudade,
também já se chamou Amor!
-
Não seja ridículo, como se isso fosse possível para você, nunca fui outra coisa
além de Solidão!
O
Amor com sorriso simpático, com sua áurea que imanava uma luz vermelha, chega
mais perto de solidão. Aquela aproximação toda incomoda a solidão, “como pode
esse ser chegar tão perto assim que atrevimento, não sabe que sou a solidão e
isso implica ficar sem falar com ninguém!”, pensa ela revoltada com tamanha
ousadia do amor.
-
Eu já fui Tristeza, antes era Solidão, pouco antes disso fui Alegria, antes era
Inocência, agora sou o Amor. Todos nós nos modificamos nos tornamos aquilo que
sentimos ser, refletimos fora o que grita dentro.
-
Amor, tu és realmente ridículo, acho que não tem sentimento mais ridículo que
você! - Solidão parece cada vez mais Impaciente e Transtornada com ser tão
chato e intrometido – Então me diga Amor, como deixou de ser Tristeza para se
tornar Amor?
-
Simples, me encontrei com você!
Solidão
olha para ele transtornada, já estava deixando de ser Solidão para ser Ódio,
ficou profundamente irritada com tamanho disparate que aquele ser “ridículo,
insuportável, sem lógica...”, lhe dizia.
-
E como eu, a senhora Solidão, transformei o nobre senhor Tristeza em Amor? Qual
foi a mágica que eu fiz?
-
Nenhuma. - Responde amor com um sorriso ainda mais belo no rosto, o que deixou
solidão Consternada – Apenas nos encontramos!
-
Então quer dizer que ao se encontrar comigo, você simplesmente mudou? - Aquela
conversa toda fez Solidão quase explodir em Ódio! - Então quer dizer que se eu
largar essa minha Solidão, te agarrar, serei transformada em Amor também?
-
Não sei. - diz Amor pensativo – só sei que igual não ficará, não tenho a
capacidade de fazer a mudança para lado nenhum, só lhe ofereço o encontro, o
que mudar depende do que o encontrar fará com você!
A
Solidão olha para Amor pensativa, “não é que tem um sorriso bonito”, fica
Consternada com o próprio pensamento, por um instante, quase que uma
microfração de tempo, Solidão virou Vontade. Isso era impossível, como assim,
Solidão não poderia ser também Vontade. Mas Vontade foi crescendo em Solidão,
vontade de abraçar o Amor, de sentir seu calor, de sentir seus braços, a
textura de sua pele, seus lábios, “como será que são os beijos do Amor?”.
Algo
parecido com uma onda elétrica explode em seu corpo, quando percebe Vontade
está beijando Amor, um beijo tão forte, profundo, que faz o corpo de Vontade
aquecer, parece que a Vontade iria se incendiar de algo que não entendia o que
era. Quando percebeu, Vontade, que até agora pouco era Solidão, tinha se
transformado em Paixão, mas não qualquer Paixão, era agora Paixão Desejante,
uma singularidade muito forte, que pode vir um pouco antes do Amor.
D.C.R
17/08/2015
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