A Antropogeografia das Tribos
A Ciência Geográfica encontra-se em crise. Falência múltipla dos órgãos. Talvez ela nem venha sobreviver com o desmoronamento do Império Patriarcal-Capital, seu criador.
Seus paradigmas tradicionais contornam a separação do homem com a natureza. Do homem com o espaço geografia. Pura ingenuidade da produção patriarcal, que separou o homem de sua natureza para a opressão e a repressão, tirando todo o caráter de ação e resistência. Temos que reconhecer a plena liberdade dos corpus, queremos a plenitude da existência, o livre desenvolvimento do espírito, em busca de uma igualdade política, econômica e de gênero.
A Geografia como Ciência foi criada para a organização da natureza para uma divisão internacional do espaço e do trabalho. Ela ainda sobrevive por meio de conceitos que nada expressam o real enquanto ele acontece em ato. A Geografia Humana sobrevive nas sombras empoeiradas de Marx.
Não há mais a clássica separação entre homem e espaço. Há apenas simbioses, alianças e engendramentos prostéticos. O que precisamos pensar agora é em trazer ao máximo a liberação do movimento e do fluxo, colocando as estruturas em metamorfose para novos arranjos sociais. <<O momento presente é de produção de um novo motor da máquina social>>
É preciso colocar o inconsciente, a materialidade e a idealidade em devir. Hegel, Marx, Nietzsche e Deleuze, entre outros teóricos revolucionários, estavam na superfície de um processo iniciado, e no momento já estamos submersos em um outro processo que vem se reconfigurando à uma nova condição espacial: um meio geográfico em rede, engendrando-se a um novo sistema de próteses.
Penso numa simbiose produtiva entre a Antropologia com a Geografia. Hoje, se faz importante pensar em um retorno antropo-geográfico das tribos.
O campo onto-epistemológico da Geografia e da Antropologia precisa se voltar ao real enquanto ele acontece. O que indica se colocar no movimento da expansão geográfica das novas tribos, na heterogeneidade espacial registrada na multiplicidade cultural e na geopolítica da física termodinâmica, que concebe a produção do mundo como um atravessamento caótico de forças desejantes, que diferem em intencionalidade e estão a causar atritos e processos de encaixe e desencaixe ao espaço.
Um movimento político de produção de conceitos que se rebate ao real. Conceitos autoproduzidos através de movimentos de fuga entre os agentes [moleculares e coletivos], mapeados em táticas e estratégias para a produção do novo e reconstrução dos valores.
Uma retomada das Ciências Humanas como Potências Políticas, de emancipação social, de ação e resistência para os agentes sociais dos territórios minoritários.
Esta perspectiva nos retoma a Heráclito quando ele salienta que ordem cósmica do mundo é um fogo que se ascende e apaga conforme a medida. Gaia, a nossa territorialidade vital, se autoproduz em um contínuo processo espacial de encaixe e desencaixe no seio da ação humanizante.
Atualmente, assistimos a evidencia de um Império Patriarcal-Capitalista. A autoconsciência da dominação nos colocam em um choque de coalizões de autoconsciências e uma guerra de ficções científicas, onde múltiplas frentes de forças coabitam. Forças que tem percorrido dois grandes eixos de produção existencial: o fluxo [forças mutantes - bárbaras e selvagens do Império da Multidão] e o refluxo [forças hegemônicas, majoritárias e neoconservadoras) >>> duas frentes de forças que se atravessam e se complementam contraditoriamente em um mesmo processo de arranju e desarranju espacial.
O capitalismo, o colonialismo e o patriarcalismo se fundiram em um mesmo processo de expansão e produção geográfica. Três esferas de poder que se coalidiram em uma mesma produção reacionária: um imperialismo político-cultural registrado sob uma Cultura Política Totalitária, que veio a sedimentar uma realidade baseada em modelos universais para a legitimação de suas estruturas de poder e dominação social.
O imperialismo cultural da Cultura Política Totalitária do Ocidente veio a sedimentar um território de poder a Gaia sistematizado por meio de códigos binários e estruturas universais, delineando um organismo calcado em ficções científicas globais que vieram a governar a produção existencial dos indivíduos, atribuindo-lhes uma identidade social, uma cor, uma raça, uma classe, um gênero e uma sexualidade.
A produção social de estruturas racionais vieram a hierarquizar o corpus [até então sem órgãos] de Gaia, inserindo os microcosmos e a heterogeneidade espacial a sistemas de homogeneização, normatização, referenciação e padronização. Com o movimento desconstrucionista, se foi constatado o caráter fictício das estruturas que organizaram o desejo para a produção social.
As estruturas globais de poder aprisionaram o desejo por meio de um arranju cultural e normativo, inserindo-o na própria infraestrutura da sociedade, o transformando em pura força de produção para a manutenção da máquina totalitária e de suas estruturas que se conectam hoje, a uma rede de controle global.
Pensar o mundo como um processo em contínua mutação, nos coloca a conceber a produção social como uma sucessão de meios geográficos. Meios que se transformam em conexão com novos sistemas de próteses: conjunto de sistemas técnicos [sistemas de engenharia e sistemas de informação e comunicação] e sistemas simbólicos [habitus, crenças e ideologias que configuram o sistema operacional coletivo].
A Terra é um agregado metamórfico de próteses: sedimentação de estratos físico-químicos e antropomórficos pelas forças desejantes. As tribos, que são territorialidades com potências que diferem entre si, conectam próteses a Gaia em agenciamento com suas necessidades vitais. É um composto maquínico-artificial de sistemas materiais e sistemas simbólicos.
A economia política é a economia da produção social de Gaia - da produção política do território: do trabalho vivo que devém a dar novas materialidades e idealidades ao corpus sem orgãos de Gaia, preenchendo seu sistema operacional com novas intencionalidades e artificialidades.
As próteses são registros, perceptos e afetos que compõe a interelação entre territorialidade e as tribos nômades que percorrem a superfície terrestre. As tribos são as responsáveis por remanejarem constantemente as fronteiras e as produções espaciais.
Através da história, os grupos humanos substituem as velhas máquinas sociais [meios geográficos vitais para a reprodução humana] por novos engendramentos e registros virtuais. A produção do território, portanto, ocorre no registro político da luta social. Do atravessamento caótico entre forças políticas que estão a gerar processos de arranju e desarranju no espaço, no campo imanente de uma virtualidade de possíveis que pode vir a se materializar em novas composições para a sociedade, e quiça, em novos motores.
O processo virtual da produção imanente, precede a heterogênese do ser e em conexão com as ações das tribos humanas e não-humanas [alguns teóricos já estão a falar em um Ser Pós-Humano, pois já estaríamos em emergidos em um outro registro ontológico em conexão com a mutação tecnocultural], é o responsável por agregar novos conjuntos de valores e materialidade ao corpus de Gaia.
Não há produção do espaço sem trabalho, sem ação, resistência e conexão entre as forças políticas. As forças e ações políticas está a remanejar as camadas espaciais de forma contínua e engendrar novas objetividades a sociedade. A produção desejante entre as tribos e sua territorialidade se funde na ação de produzir espaço. O desejo torna-se a categoria política que possibilita o conhecimento da produção social, consequentemente, o de sua dominação e alienação.
A relação transversal das tribos com Gaia é de pura produção. É uma produção que envolve o consumo intensivo de um corpus para o germe de novos engendramentos, que por sua vem a gerir novos arranjos existenciais e valorativos para os grupos [pós]humanos.
A Natureza como uma Indústria Humana tem como fundamento a produção primária: produção da produção. Ela é a que conecta as peças umas às outras dando-lhe virtualidade de possíveis.
A força virtual é a potência que existe em ato. É a imagem-movimento que vem a preencher os corpos e a heterogeneidade de elementos espaciais [máquinas e híbridos que compõe a paisagem contemporânea]. É a força do desejo que funde homem e natureza sob um processo de circulação, consumo e produção. O encontro das seres vivos com Gaia, passa a se registrar em uma produção desejante para a evolução e conservação das multi-espécies e humanidades.
A evolução perpassa pela mutação. É o desejo que não para de acoplar fluxos contínuos e sistemas de próteses ao corpus de Gaia. A sucessão de tribos vieram a sistematizar um organismo ao até então corpo sem órgãos da Terra, improdutivo e infértil.
No decorrer da história humana, as tribos vieram a cristalizar um sistema complexo de próteses e produção à anti-produção de Gaia. Na interconexão entre Indivíduo-Natureza, Gaia passa a se tornar uma territorialidade vital ao grupos humanos - é a superfície de registro na qual toda a produção virtual se instaura, delineando novos conjuntos de engendramentos [materiais e simbólicos].
Sob a complexidade das próteses, os sistemas técnicos e os sistemas simbólicos passam a se interconectar em uma conjunto de redes entrelaçadas entre de corpos, máquinas, fluxos e capital. Os grupos humanos passam a produzir uma humanidade hierarquizada, que hoje tem se estratificado em decorrência da polifonia desordenada.
As tribos passam a consumir intensivamente o corpus de Gaia, celebram mortes e novas alianças. Na ação racionalizante, inserem próteses e codificações. A produção espacial da Natureza vem a se registrar em uma sucessão de regimes de signos: de meios geográficos, com suas forças política [hegemônicas e minoritárias – e é sempre bom lembrar que há uma coalescência de choques e atravessamentos que estão a transformar a paisagem de forma contínua e que estão a gerar sistemas de códigos ao espaço].
O registro político do território perpassa por um processo de codificação, decodificação e recodificação entre as forças políticas que está a gerar atritos e restruturações na paisagem.
Hoje, pode-se dizer que registro simbólico devém a ser desdobrado em decorrência da luta social das minorias, que estão a se apropriar dos espaços políticos para a produção do novo e impressão de seus signos: marcas e perceptos. O retorno das tribos nômades devém a gerar um intenso processos de encaixa e desencaixe ao território. As singularidades minoritárias detém a potência virtual do novo e o espírito da transformação social.
COLPANI, Felipe Pancheri.
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