sexta-feira, 29 de maio de 2015

[MANIFESTO CONTRASEXUAL]

O REGIME REGULADOR DO ARMÁRIO

Viver no armário é uma experiência reativa na produção existencial contemporânea. Os individuos que caminham por desejos secretos, amores ocultos e relações aprisionadas na intimidade contribuem de forma efetiva para a manutenção das próprias estruturas de poder que lhes oprimem, ou seja, o da heteronormatividade. 

A heterossexualidade é um registro compulsório e conservador que se solidificou sob um regime de signos que tem como pressupostos ideológicos, controlar, punir e proibir aquele que escapa ao modelo de referência: o homem-branco-burguês-macho-heterossexual do Primeiro Mundo. 

As estruturas de poder, nesse sentido, petrificam a moral heterossexual em um regime compulsório que orienta uma simulação existencial regida por normas, regras e leis que vão passar a regulamentar a produção desejante dos corpus.

As relações sócioafetivas passam a ser fixadas na norma de uma padronização reacionária. Nem mesmo as tecnologias de simulação da bissexualidade e da homossexualidade escapam da norma heterossexista. As orientações sexuais acabam se tornando ficções políticas de taxação das singularidades a quadros de referenciação da heteronormatividade. 

O armário é um regime regulador da heterossexualidade compulsória de organização da vida social, tornando-se uma máquina produtora de subjetividades, caminhando na superfície da repressão do desejo. O armário não é um atributo apenas dos indivíduos gays. Todos estamos moldando a nossa produção desejante para se adequar aos modelos impostos. O que impede o desdobramento do desejo para novas formas mutantes de si e do mundo.

As pessoas que convivem com os fanstasmas da heteronormatividade temem as consequências nas esferas públicas e familiares. Passam a levar uma vida fraca e impotente, pois imersos no vazio e na repressão, não conseguem produzir realidades, nem se colocar a borda de novos devires. 

A vida passa a ser baseada na mentira e na vida dupla, o que por sua vez geram sérios problemas psíquicos tais como: medo, insegurança, agressividade e impaciência para com o outro. Dividir-se em dois [ou até mais], manter uma fachada ilusória entre si mesmo e aqueles com quem convive, exige muito esforço e capacidade para suportar o medo de ser descoberto. 

Este medo cria o temor, e até mesmo a temível depressão. O individuo imerso no armário cria uma necessidade de estar sempre atento aos sinais que sabotam a sua identidade fictícia, que denunciam a sua intimidade e seus desejos. Evita lugares e pessoas que associem a uma identidade temida pelo mesmo, se esforça para agir contra seus próprios instintos desejantes e sentimentos e acabam mantendo um compromisso com a ordem heterossexista que o rejeita, controla e puni das mais variadas formas. 

A construção da identidade homossexual em tempos de fluidez, perpassa por agências de sociabilidade virtuais e por um conjunto de habitus que orientam e moldam o comportamento [mas não determina], e por uma paisagem existencial de descobertas e experiências. A interconectividade contemporâneo entre territórios sociais e territórios virtuais põe a identidade em um movimento de reconstrução contínua, a ser interpretada e simulada sob infinitas maneiras. 

A identidade homossexual vem a se produzir na interface destes múltiplos territórios existenciais que percorrem a sociedade: as agências sociais [família, escola, universidade]; os territórios virtuais [as redes sociais, os aplicativos de encontros etc] e as dimensões incorpóreas do inconsciente [produção desejante]. A sucessão de experiências [afetivas e sexuais] é o que devém a dar mutação a identidade e enfrentamento as inquietações existenciais que afetam grande parte dos homossexuais. 

Podemos descrever a formação da identidade homossexual a partir de três estágios. São fases não-lineares que se intercalam no processo de fragmentação da identidade. 

Denomino o primeiro estágio de QUEM SOU EU?. É a fase dos primeiro questionamentos existenciais, marcada por muita confusão e desconhecimento. O “posso ser homossexual?” passa a ser um pensamento inquietante. 

O inconsciente passa a ser habitado por um duelo de forças: forças do desejo e forças de captura do fora [medo e pressão social – duas forças de captura da heteronormatividade]. O indivíduo passa a se confrontar internamente com este atravessamento caótico: onde as forças de captura se confrontam com pulsões desejantes e fantasias. 

O segundo estágio chamo de MUTAÇÃO EXISTENCIAL. Fase da bifurcação. É uma fase difícil, de muitos questionamentos com relação a identidade e a sexualidade. É a fase pré-armário e das novas pulsões desejantes. O que vai desdobrar o desejo deste estágio será a sucessão de acontecimentos e experiências. 

Se o indivíduo não tiver boas expectativas quanto a sua descoberta, ele pode vir a conviver com a repressão desejante e seus efeitos, tais como, melancolia, a insegurança constante e depressão. É um estágio marcado por sentimentos de aceitação concomitantes a sentimentos de vazio e negação, sentimentos que mudam de acordo com o impacto da homossexualidade para o indivíduo e o seu nível de enfrentamento. 

O terceiro e último estágio é o da PRODUÇÃO DESEJANTE. É a fase de aceitação e em seguida, de afirmação e de projeção da identidade. De incorporação de novos simulações. 

Neste estágio, passam a produzir experiências compartilhadas entre membros da mesma tribo. É a fase que parte dos homossexuais buscam enfrentar a saída do armário e a desconstruir a heteronormatividade e a heterossexualidade compulsória. Momento de novo compromisso ético-político: agora o indivíduo incorpora a homossexualidade à sua produção existencial, propiciando a autoaceitação e afirmação política em relação à identidade minoritária. 

A autoaceitação é um processo que gera novos contornos a produção desejante dos indivíduos. Ela gera as condições para a diferença, fazendo com que o indivíduo componha sua singularidade a cargo do desejo, se deixando afetar por uma exterioridade que a mina e o faz divergir dos próprios fantasmas internos. 


COLPANI, Felipe Pancheri.


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