O homem moderno possui uma formação genealógica que revela sua constituição social. Uma constituição que ocorreu sob um registro simbólico universal, equipado por um mosaico regulamentador de normas, regras, leis, discursos e normas de conduta. Foi-lhe fabricado uma identidade, um gênero, uma classe e uma raça.
Nesse sentido, nossa produção desejante torna-se esmagada e manipulada pelas estruturas que organizam e governam nossos corpus. A repressão do desejo coloca os corpus na superfície da repressão, gerando vazio e uma vida reproduzida no seio do consumo em massa e das tecnologias de simulação globais.
O inconsciente, que estrutura o nosso desejo ao deleite do campo social, é uma máquina de repressão que governa a produção libidinal capitalista. Todo delírio e afirmação desejante é recalcado. Ao reprimir os desejos sob um célula familiar nuclear e patriarcal, o capitalismo assegura o engendramento das máquinas operáveis ao corpus pleno do capital. Assenta-se toda uma materialidade aos corpus. Investem e codificam o desejo na própria infraestrutura da máquina social, com base na opressão e na repressão.
A máquina social é um campo bioquímico de forças políticas. As partes que compõe a totalidade maquínica não param de efetuar cortes, deslocamentes, um processo continnum de arranjo e dessaranjo da paisagem social. Neste contexto, a Natureza é uma poderosa fábrica autoprodutora, onde sua máquina social e suas engrenagens estão em um processo ininterrupto de produção - nos devires, nos tempos, hiatos, rupturas e movimentos reais que atravessam a nossa produção existencial.
O desejo é a força motriz das máquinas. As tribos em conexão com a Terra produzem próteses e stratus antropomórficos na Natureza. A força desejante nos dá a potência de criação e investimento, numa produção vital que não reconhece a separação entre homem e seu espaço geográfico. Há apenas simbioses e engendramentos, alianças e conexões.
Operamos nossa produção existencial por meio de linhas evolutivas, que passam a tecer ou a desconstruir a paisagens social a partir de uma sucessão de meios e próteses. As linhas se conectam a outras tantas linhas, gerando movimentos e ações que redirecionam as forças que deslocam as estruturas e geram novos arranjus sócioespaciais.
A reconstrução do espaço geográfico opera sob dois núcleos: um sedimentado, de ordem macropolítica - geralmente são formações que se deram no seio dos interesses de forças hegemônicas, sob o comando do Império Patriarcal-Capitalista; e outro flexível, de ordem micropolítico e molecular, por investimentos de forças mutantes que estão a deslocar estruturas e a gerar novos focos de produção existencial.
Nossa produção desejante segue produzindo passagens virtuais, que quando não esmagadas pela repressão social, pode vir a se cristalizar e contribuir para novas formações antropomórficas, pois o desejo é a força cósmica que contribui efetivamente para a nossa manutenção e autoconservação. Temos a potência que parte da nossa própria essência para criar as condições da atividade criativa e a construção contínua de novos sentidos e valores.
COLPANI, Felipe Pancheri.
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